Autismo leve ou Autismo grau 1 de suporte

Fragmento de pintura mostrando uma menina pequena sentada no chão com uma boneca, o olhar desviado do pintor, suas irmãs ao fundo.

Autor: Dr Fernando Tonelli

Católico. Pai. Médico Psiquiatra. Graduado pela UFES com pós-graduação pela PUC-Rio, o Dr. Fernando Tonelli é o atual Presidente do CRM-ES. Sua prática clínica em Vitória é moldada pela sua formação, unindo a lógica do Engenheiro, a sensibilidade do Músico e a profundidade do Tomismo. Para ele, o diagnóstico não serve para rotular o paciente, mas para remover os obstáculos que impedem o pleno desenvolvimento da sua personalidade e o resgate da ordem em sua vida e família.

24/01/2026

O que é Autismo leve ou Autismo grau 1 de suporte (Síndrome de Asperger)

O termo “autismo leve” — tecnicamente classificado hoje como Transtorno do Espectro Autista (TEA) Grau 1 de Suporte — refere-se a uma condição do neurodesenvolvimento que apresenta prejuízos reais na interação social, na comunicação e na flexibilidade comportamental. Até o ano de 2013, anteriormente à caracterização em graus de suporte pelo DSM-V, o autismo leve era conhecido como Síndrome de Asperger. As mudanças trazidas no DSM-V tornaram o diagnóstico mais amplo, exigindo rigor técnico para não ser confundido com outros transtornos psiquiátricos ou traços de personalidade.

Risco da generalização

O diagnóstico é mais complexo nos níveis mais baixos de suporte. Pela natureza mais sutil dos sintomas, é comum que as dificuldades do paciente sejam mimetizadas por outras condições, como:

  • Transtorno de Personalidade Esquizotípica;

  • Personalidade Anancástica (Personalidade Obsessiva-compulsiva);

  • Personalidade Tímida (Personalidade Esquiva)

Diagnosticar essa desordem não é rotular uma “forma de ser”, mas sim identificar um obstáculo funcional que impede o pleno desenvolvimento da personalidade do paciente. Somente através do diagnóstico diferencial é possível distinguir o que é um traço de temperamento daquilo que é uma desordem, diferenciando a intervenção.

Caracteristicamente o paciente com autismo leve apresenta dificuldade em compreender sinais não verbais de comunicação e comportamento inflexível, com dificuldade em adaptar-se a mudanças na rotina. Necessita de suporte para lidar com as relações sociais ou se adaptar a situações novas, tendo prejuízo na esfera social na ausência desse suporte. Apesar dessas dificuldades, tende a ser independente em diversas áreas da vida, em geral necessitando de mínimo apoio para as atividades do dia-a-dia.

Sintomas de autismo leve

Dificuldades na socialização

Dificuldades de socialização são características no autismo leve. Pacientes com autismo ou TEA grau 1 de suporte podem apresentar dificuldade em iniciar ou manter conversas, interpretar sinais não verbais e compreender normas sociais. Podem apresentar contato visual limitado, ter dificuldade em participar de brincadeiras com outras crianças e apresentar dificuldade em fazer amigos. Podem também apresentar dificuldade em compreender humor, sarcasmo, palavras de duplo sentido e linguagem figurativa.

Dificuldades de linguagem pragmática

A dificuldade de linguagem pragmática, uma marca do autismo leve, se refere à dificuldade nos aspectos sociais ou situacionais da linguagem. Quando crianças, podem desenvolver a linguagem no ritmo adequado à idade, porém apresentam dificuldade para compreensão de questões abstratas ou ambíguas, em iniciar ou manter uma conversa, ajustar a fala à audiência ou contexto.

Comportamentos repetitivos (estereotipias)

Comportamentos repetitivos ou estereotipias são frequentes no autismo leve, podendo se manifestar como movimentos repetitivos (balançar as mãos, estalar os dedos, bater as mãos, balançar o corpo), repetição de palavras ou frases, desenvolvimento de rituais e rotinas rígidas, como organizar objetos de uma forma muito específica e seguir uma sequência rigorosa de atividades, o que levar à confusão de diagnóstico com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Interesses especiais

Podem também apresentar fascinação e expertise em tópicos ou atividades específicas, o que é referido como interesses especiais ou hiperfoco. Embora esses interesses possam ser motivacionais, eles podem prejudicar o foco e o desempenho em outras áreas. Esta característica é compartilhada com a Personalidade Anancástica, diagnóstico esse que deve ser avaliado com rigor para evitar que uma desordem de personalidade seja tratada como autismo, ou vice-versa.

Alteração na sensibilidade sensorial

Crianças ou adultos com autismo nível 1 de suporte frequentemente apresentam uma desordem no processamento sensorial, podendo ter sensibilidade aumentada ou diminuída a estímulos, em especial ao som, mas, também, à luz, toque, sabor ou cheiro. Com isso o sistema nervoso não consegue organizar as informações que chegam pelos sentidos de maneira funcional, resultando em:

  • Hipersensibilidade (Sobrecarga): Estímulos comuns — como o barulho de um ar-condicionado, a textura de uma etiqueta de roupa ou a luz de um escritório — são processados pelo cérebro como agressões agudas, gerando estresse e fadiga mental.

  • Hipossensibilidade (Busca Sensorial): Paciente parece “sedento” por estímulos, buscando movimentos repetitivos, pressões fortes ou sons intensos para conseguir sentir o próprio corpo no espaço.

A Armadilha do Diagnóstico de TDAH

Essa desregulação sensorial pode interferir na habilidade em se concentrar, regular emoções e participar de atividades do dia-a-dia, levando frequentemente ao diagnóstico equivocado de TDAH. Um paciente que não consegue filtrar o ruído de fundo ou que está sendo “bombardeado” por estímulos visuais terá, naturalmente, uma dificuldade de concentração.

No entanto, a desatenção aqui é um sintoma secundário da desordem sensorial, e não um déficit de atenção primário. Tratar esse paciente apenas com medicamentos para TDAH (que agem em dopamina e noradrenalina), sem abordar a causa sensorial do autismo, é uma falha técnica que ignora a estrutura real do transtorno.

A Função Estabilizadora dos Objetos

O apego excessivo a certos objetos, comum no autismo leve, não deve ser encarado negativamente. Diante de um mundo sensorial desordenado e imprevisível, o objeto familiar funciona como uma âncora de estabilidade. Ele oferece uma sensação previsível de conforto e segurança, ajudando o paciente a recuperar o eixo em momentos de sobrecarga.

Talentos e Funções Executivas: O Desafio da Organização

É frequente que pacientes com autismo Grau 1 apresentem habilidades acima da média em áreas específicas,. A percepção visual e auditiva aprimorada costuma se traduzir em talentos para a música, matemática ou uma memória detalhista excepcional.

No entanto, esses talentos muitas vezes coexistem com dificuldades nas chamadas funções executivas — que são as capacidades do cérebro de planejar, organizar e executar tarefas. Sem essa “ordem interna”, o paciente pode enfrentar:

  • Dificuldade de Planejamento: Sabe o que precisa ser feito, mas não consegue sequenciar os passos para realizar a tarefa;

  • Rigidez e Inflexibilidade: Grande sofrimento diante de mudanças na rotina ou imprevistos;

  • Desorganização no dia a dia: Dificuldade em gerenciar o tempo e priorizar atividades, o que gera exaustão mental.

O suporte médico, terapêutico, de familiares e educadores não deve buscar “apagar” as características do autismo, mas sim ordenar as funções executivas. O objetivo é que esses talentos deixem de ser “ilhas de competência” isoladas e passem a ser ferramentas úteis para que o paciente desenvolva sua personalidade com autonomia e ordem.

Links externos:

Approach to autism spectrum disorder https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4430056/

 

Autismo e Transtornos do Neurodesenvolvimento

O diagnóstico de Autismo Grau 1 não deve ser encarado como um rótulo limitador. O papel de uma avaliação precisa é identificar obstáculos para que possamos trabalhar no desenvolvimento da personalidade e no resgate da ordem na vida do paciente.

Convido você a conhecer nossa abordagem clínica e como auxiliamos famílias em Vitória a enfrentar os desafios do autismo e demais transtornos do neurodesenvolvimento.

Conheça nossa abordagem no neurodesenvolvimento.

 

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