Postado em out 6, 2009 em Blog Livre Mente, Transtornos Psicóticos | 4 comentários

1) O que é a Esquizofrenia?

R.: A Esquizofrenia é a mais grave das doenças neuropsiquiátricas e atinge cerca de 1% da população mundial. Geralmente se manifesta pela primeira vez na adolescência ou no adulto jovem, independentemente da cultura e é mais precoce no homem do que na mulher. Se não tratada, acarreta uma fragmentação ou desorganização nas funções mentais e pode levar à demência. Por essas características, foi primeiramente chamada “Demência Precoce”, para diferenciar dos quadros de demência que só aparecem na idade mais avançada, como a Doença de Alzheimer, Doença de Pick, demências vasculares, demência de Parkinson, demência pós-AVC.

2) Como se faz o diagnóstico? Existe algum exame para isto?

R.: O principal é que seja feita uma boa anamnese, ou seja, deve-se coletar o maior número possível de dados sobre o aparecimento e a evolução dos sintomas, bem como a história do desenvolvimento biopsicossocial do paciente. O médico, assim, vai analisar as características do quadro, que geralmente se apresenta com: alucinações (sendo as mais comuns as auditivas, onde o paciente escuta vozes externas à sua cabeça, conversando entre si e fazendo comentários negativos sobre o paciente), delírios (que são crenças falsas e firmes, principalmente de perseguição e de grandeza), isolamento social, pouco reativo afetivamente, com distúrbios do pensamento (fala estranha ou incoerente), comportamento bizarro (inclusive com negligência pessoal), perversão do apetite.

É importante fazer diagnóstico diferencial com outros transtornos psiquiátricos e doenças clínicas que podem se apresentar com sintomas psicóticos, como: depressão grave com sintomas psicóticos, exaltação maníaca nos transtornos do humor bipolar, alucinoses presentes em quadros de intoxicação ou abstinência de álcool ou outras drogas, demências, infecções no Sistema Nervoso Central.

Vários grupos de pesquisa em neurociências, usando técnicas de imagem como Ressonância Nuclear Magnética Funcional – RNMf e Tomografia Computadorizada por Emissão de Próton Único – SPECT, têm descoberto algumas alterações anatômicas que são mais prevalentes no cérebro de portadores de Esquizofrenia do que em pessoas sem o transtorno. Porém, ainda não existe um padrão que nos permita usar tais exames para auxiliar no diagnóstico. Podemos solicitar alguns exames, como testes da função da Tireóide, Eletroencefalograma, hemograma e outros para nos ajudar a fazer os diagnósticos diferenciais. Num futuro próximo, é bem provável que surjam exames com essa finalidade.

3) E o tratamento, deve ser feito com o paciente internado ou pode ser realizado em casa?

R.: Sendo feito o diagnóstico de Esquizofrenia, deve-se iniciar o tratamento farmacológico o mais rápido possível, para evitar a recorrência de crises psicóticas e para que o paciente não evolua com uma perda progressiva de suas funções mentais.

Desde a década de 1950, os medicamentos antipsicóticos surgiram e vêm sendo aperfeiçoados, o que permitiu que grande parte dos pacientes pudesse voltar à convivência familiar e social. Assim, os tratamentos mais antigos,  geralmente vistos como tratamentos desumanos ou tortura, caíram em desuso ou foram completamente modificados. Geralmente são associados fármacos antipsicóticos e calmantes com Terapia Comportamental e Terapia Ocupacional. A família deve ser educada especialmente no sentido de minimizar o estresse e deve ser estimulada a não discutir com o pensamento psicótico, evitando a confrontação e a crítica.

É importante salientar que mesmo os pacientes bem medicados, estabilizados e que vivem em um ambiente familiar e social bem estruturado e compreensivo correm o risco de, eventualmente, apresentarem crises psicóticas. Nesses casos urgentes, necessitarão de internação hospitalar, às vezes com contenção ao leito, para que se estabilize o quadro e ele possa voltar ao convívio social. Para isso, é necessário que os hospitais gerais disponham de leitos e equipe de saúde mental capacitados para esse tipo de atendimento.

Do ponto de vista da saúde pública, compondo a rede de atenção à saúde mental, estão os CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, onde os pacientes psiquiátricos e seus familiares podem ser atendidos ambulatorialmente em 3 regimes possíveis: intensivo, semi-intensivo e extensivo, por uma equipe multidisciplinar. Além dos CAPS, as equipe do PSF – Programa de Saúde da Família, devem ser capacitados para detectar, acolher, cuidar e acompanhar os casos mais leves e já estabilizados.

Entrevista cedida pelo  psiquiatra Dr Fernando Avelar Tonelli, publicada no Jornal Tribuna Popular (Cacoal, Rondônia) em 18/09/2009.