Postado em mar 23, 2013 em Blog Livre Mente, Dependência Química, Transtornos Psicóticos | 0 comentários

Entrevista publicada no jornal “A Gazeta” – Vitória – ES , em  02/02/2013

Cannabis sativa, por Koehler

Cannabis sativa, por Koehler

O que é esquizofrenia?

A Esquizofrenia é uma doença mental grave, caracterizada por surtos psicóticos. Os primeiros surtos ocorrem precocemente, geralmente na adolescência e nos adultos jovens. Raramente tem início mais tardio. Se não tratada, pode levar o indivíduo a um quadro demencial; por isso, antigamente era conhecida como Demência Precoce.

Como é feito o diagnóstico da esquizofrenia?

Seu diagnóstico é feito de acordo com a avaliação clínica, feita pelo médico psiquiatra, do quadro de sintomas e do histórico do paciente, seguindo os critérios propostos pela CID -10 (Classificação Internacional de Doenças – 10ª. edição) ou pelo DSM – IV- TR (Diagnostic and Statistical Manual – version IV – Text Revised). Os exames de imagem podem ajudar a definir diagnósticos diferenciais, mas não são imprescindíveis.

Quais são suas principais características?

Podemos separar os sintomas da esquizofrenia em dois grandes grupos, chamados de Sintomas Positivos (ou Psicóticos), que são principalmente as alucinações (percepção claras e bem definidas de estímulos físicos: visuais, auditivos, táteis, olfativos e gustativos que não existem), os delírios (ideias errôneas quanto à interpretação da realidade), desorganização do pensamento, do discurso e do comportamento, sonorização do pensamento (o paciente pode pensar que seu pensamento está sendo transmitido em alto som e todos à sua volta o escutam), entre outros. Já os Sintomas Negativos são muitas vezes confundidos com Depressão (humor depressivo, embotamento afetivo, indisposição generalizada, negativismo ou obediência automática, lentificação psicomotora – mas pode haver agitação) etc. É importante frisar que não há a necessidade de todas essas características estarem presentes para que o diagnóstico de Esquizofrenia seja fechado. Esses sintomas devem estar presente por, pelo menos, 6 (seis) meses e esse prazo deve incluir no mínimo 1 (um) mês de fase ativa. Atualmente, de acordo com os critérios diagnósticos vigentes, há 5 (cinco) tipos de Esquizofrenia, dependendo das características predominantes do quadro clínico que ocasionou a avaliação psiquiátrica. São eles: tipo Paranóide, tipo Desorganizado (ou Hebefrênico), tipo Catatônico, tipo Indiferenciado e tipo Residual.

O que ocorre de diferente no cérebro de uma pessoa esquizofrênica?

Alguns pesquisadores defendem que a Esquizofrenia é uma doença do pensamento e vários estudos mostram que, desde muito cedo, ainda nas fases iniciais do desenvolvimento do córtex cerebral (principalmente na região do lobo frontal), ocorre uma migração desorganizada de neurônios (“células nervosas”) e formação inadequada de “circuitos neurais”. Além disso, na adolescência (que é uma etapa fundamental para o “amadurecimento” desses circuitos) ocorre uma “poda” anormal de neurônios que estão em excesso e circuitos adequados são eliminados, enquanto circuitos defeituosos permanecem. Isso provoca a desorganização geral do funcionamento intelectual. Se compararmos o cérebro com um computador, é como se os programas do “Computador Esquizofrênico” estivessem contaminados com vírus e falhassem com muita frequência.

Há uma predisposição genética para a esquizofrenia?

Sim. Vários estudos científicos evidenciaram isso. Assim, parentes (jovens) de primeiro grau de indivíduos esquizofrênicos apresentam um risco de 3 a 7 % de virem a manifestar a doença, enquanto na população geral esse risco varia de 0,5 a 1 %.

Ela tem alguma relação com o uso de drogas?

A resposta também é sim. Especialmente a maconha. Não significa que a maconha seja causadora de Esquizofrenia. O que ocorre é que indivíduos que tenham a carga genética para desenvolverem a doença e usam a maconha (principalmente os adolescentes e adultos jovens) podem ter o primeiro surto psicótico engatilhado pela droga e, daí em diante, outros surtos virão, mesmo sem o uso da substância.

Que consequências a esquizofrenia traz para a vida do portador?

O paciente esquizofrênico carrega, ainda, um estigma muito forte e sofre muita discriminação. A própria desorganização mental já transtorna sua vida, tornando difícil seu convívio familiar, social e no trabalho. Geralmente, os esquizofrênicos deixam os estudos precocemente, têm muita dificuldade para se fixar em qualquer trabalho e, se não tratados, a degeneração cerebral pode evoluir para um estado de demência irreversível.

Ao notar sinais da esquizofrenia em amigos ou familiares, que medidas devem ser tomadas?

Devem procurar o Psiquiatra para que o diagnóstico correto seja feito e para que o tratamento seja iniciado o mais rapidamente possível.

Em que consiste o tratamento?

A base do tratamento da esquizofrenia é medicamentosa. Atualmente há uma grande variedade de medicamentos antipsicóticos de boa eficácia e, mesmo que ainda não se considere uma doença curável, a esquizofrenia pode ser controlada e o paciente pode ficar sem apresentar crises psicóticas, o que melhora muito sua qualidade de vida. Muitas vezes, é necessário associar algum antidepressivo para melhorar os sintomas negativos e algum ansiolítico. Além dos medicamentos, a psicoterapia tem um papel fundamental no tratamento. Treino de habilidades sociais, artes, esportes também devem fazer parte do tratamento.

Qual é o papel da família durante o tratamento do paciente esquizofrênico?

A família deve, primeiramente, entender que a esquizofrenia é uma doença que tem tratamento e, só raramente o paciente necessitará internação. De uma maneira geral, o tratamento é muito eficiente e o paciente tratado e estabilizado pode conviver muito bem com todos. Para isso, é necessária a participação da família durante todas as etapas do tratamento.